UMA LUZ QUE NÃO SE APAGA - uma crônica sobre a eternidade do amor
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

É possível uma pessoa ir embora sem partir?
Não consigo lembrar direito dos meus últimos quatro anos. Não sei quais comidas novas experimentei; quais os lugares que visitei; quais momentos ficarão marcados. Mas os meus primeiros quatro anos de vida não me saem da memória.
Eu morava no mesmo terreno que minha avó paterna. Fui uma dessas crianças sortudas com a avó sempre por perto. O que tenho dela são apenas fragmentos de lembranças, mas são pedaços tão bonitos. Tão poéticos. Tão profundos que ficaram selados em mim.
A imagem dela é como uma pintura pendurada na parede da sala ocupando a parte mais importante do meu cômodo. Sempre visito minha galeria interna.
Eu, sentada na calçada com as perninhas balançando enquanto a vó descascava cana plantada no fundo do quintal. Ali a felicidade encontrava o seu lugar. Ela me dando as raspinhas de gelo com açúcar que ela tirava direto do congelador da geladeira. Hoje nem fazem mais geladeiras com raspinhas de vó.
Os passeios na igreja que eu fazia com ela toda semana, e quando não podia ir, eu e meu irmão, ficávamos chorando no portão vendo a vó partir de coração partido por nos deixar para trás. Bem coisa de vó. Eu nunca esqueci seu coque no cabelo, seu vestido de botão, seus óculos de grau, sua doçura singular.
Lembro que gostava do braço dela. Aquele braço de pele fininha parecendo um tecido sofisticado que eu adorava acariciar. Ela sentada na varanda da casa tomando chimarrão logo pela manhã. Tenho lembranças tão nítidas como se eu tivesse vivido mais tempo junto dela.
Tenho primos que não criaram memórias boas com a vó, e que até dizem que ela não foi uma boa mãe. Mas nenhuma opinião de quem não soube quem ela foi vai mudar o que ela criou em mim. Ela criou amor em mim. Nada é capaz de desfazer um amor. Nem a morte, nem a calúnia. Um amor que só uma avó tem para dar. Sinto pena de quem não viveu isso. Sinto orgulho de ter vivido isso.
Seu velório foi em casa, no tempo em que se velavam as pessoas em casa. Não queria ter guardado essa memória dela. Queria só as felizes. Meu irmão se escondeu debaixo de um vaso de planta e chorou descompassadamente. Ele ficou um tempo sem ir à escola pela dor que sentia. Eu sofri mais pela tristeza dele do que por tudo que acontecia.
Eu era pequena demais para entender o tamanho daquela perda.
Mas o amor não morre.
Foi apenas quatro anos juntas para ela alugar um cômodo em mim. Só que não foi pelo quanto durou esse encontro, foi o que ela fez desse encontro que me marcou. Minha vó estendeu o tempo como nenhum físico foi capaz de prever. Ela eternizou o amor em mim em milésimos de segundos que duraram uma vida inteira. Milagres de vó.
Aquela simplicidade de afetos mútuos criaram raízes em mim. Esse foi o laço durável: o amor. Aquele laço criado entre avós e netos que parece uma obra de arte perpetuada nas galerias da vida.
Ela me deixou o amor como herança. O tipo de fortuna que a gente distribui pelo caminho. Foi o jeito que ela encontrou de ir embora sem partir.
A lembrança que tenho da minha vó é como uma luz que a gente deixa sempre acesa num cômodo importante da casa. Minha vó é uma luz que não se apaga. Vai estar lá sempre iluminando o amor que criou em mim.




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