CHUVA INVISÍVEL - quando o nada é tudo que temos
- Elisangela Dalmazo
- 31 de mar. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 24 de abr. de 2023

Quando começa a chover, com raios e trovões, temos o costume de desligar todos os aparelhos eletrônicos e tirar tudo da tomada aqui em casa. E nessa a internet também é desligada. Nos força a sair da frente do computador e parar por alguns minutos.
Esses dias foi assim. A tempestade chegou. Deitei no sofá e fiquei olhando a chuva cair. Observei o telhado da vizinha brilhar com a água escorrendo sobre ele. As gotas se transformando em risco no ar. O aplauso dos pingos ao tocar o chão. Um espetáculo mágico. Mas que mora num pedacinho do tempo.
Meu marido, sentou no outro sofá e pegou o celular. Passou o dedo sobre a tela. Inquieto. Escutei o barulho do aplicativo de jogos. Paciência. Fiquei notando a impaciência dele em aproveitar aquele momento para relaxar. Dar um tempo. Olhar a chuva. Desligar a própria tomada.
"Você não consegue ficar sem fazer nada, não é?", perguntei observando seus olhos grudados na tela. "É chato não fazer nada", ele disse.
A gente precisa aprender a se desocupar e a ocupar o espaço do nada. O vazio é nosso por inteiro. Não criamos vida sem o vão. Precisamos de espaço para crescer. Nos perderemos de nós se não soubermos contemplar o vácuo. A pausa. O silêncio é necessário para fazer a gente ouvir. Lá dentro onde não procuramos mais escutar.
Vivemos hiperatarefados, hiperconectados, hiperdesligados da vida que acontece no entorno. Preenchemos um espaço precioso para fugir da nossa própria companhia. Olhamos sem enxergar. Não ouvimos mais o coração. Não paramos para respirar. Estamos nos sufocando de artificialidades enquanto paramos de sentir a vida. Perdendo os sentidos.
Pensei por uns minutos nesse incômodo e decidi observar a porta. Os detalhes. Os contrastes. Cores. Texturas. Formas. Testei a presença. Limpei a mente para prestar atenção no que meus olhos estavam vendo, e neguei a viagem que meus pensamentos me ofereciam. O corpo em pausa e a mente em trânsito não é descanso. Excesso. Precisamos parar a mente. Pensamentos e pensamentos. Cansa. Mais que o esforço físico.
Contemplar a performance da chuva. Olhar a formiga que caminha apressada pelo chão. Uma nuvem que passa lentamente. Isso acalma. Faz a gente voltar para onde nunca devia ter saído. Do agora. Da vida. Paramos de prestar atenção no que nossos olhos nos mostram. Cegamos. Alugamos uma casa em pensamentos turbulentos e decidimos morar lá. Estamos adoecendo. Precisamos nos colocar em nada. Contemplar o vazio. Sentir vão. Ficar à toa. Respirar. Ocupar o nosso lugar de paz. No intervalo é onde vive o nosso eu.
Não precisamos recarregar as energias. Precisamos desligar nossas tomadas para nos reconectarmos. Voltar a enxergar. Silêncio. Barulho o tempo todo não faz a gente ouvir coisa alguma. Nem sentir. Nem viver.
Somos um copo cheio de água o tempo todo. Transbordando. Com cansaço escorrendo pelo chão. Cheios de tarefas pingando pela casa. Angústias molhando tudo. Com medo de não sermos úteis, nos enchemos do inútil. Mas um copo vazio ainda é um copo. Sem vazio para nos preencher, deixaremos o conteúdo estragar nossa forma. Nossa utilidade. Nossa visão. Nosso nada. E sem o nada perderemos o ar. Morreremos sufocados por simulações de mundos, enquanto a chuva se apresenta lá fora sem ninguém para ver.




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