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HERANÇA DE VIDA - uma crônica sobre o que nos pertence

  • Foto do escritor: Elisangela Dalmazo
    Elisangela Dalmazo
  • 30 de jan. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 2 de jun. de 2023





Meus pais passam aqui em casa, às vezes, pela manhã, quando estão voltando da chácara. Eles dividem a morada em duas casas. Uma chácara pequena que compraram há alguns anos, onde ficam os fins de semana e algumas noites, e a casa da cidade para onde precisam voltar por causa do trabalho, dos netos, dos filhos que ainda precisam deles.


E o caminho entre uma casa e outra pode ser feito pela rua onde moro. A visita é quase sempre para trazer ovos caipiras, um pão caseiro de forno à lenha que a mãe faz, mas o objetivo mesmo da visita é para um dedinho de conversa. Saber se estamos bem. Mãe gosta de ver se os filhos não estão mentindo, só um “estamos bem”, por telefone, não é suficiente.


Faço café. A gente se senta em volta da mesa. Eles se servem no copo — é assim que gostam de tomar café: no copo —, e conversamos entre um gole e outro. O tempo é corrido, mas sempre tentamos falar sobre como está todo mundo.


No último dia que passaram aqui, a conversa foi sobre o começo dos dois na juventude quando decidiram morar juntos. Não sei porque fomos parar nesse assunto, mas a mãe conta essa história com uma riqueza de detalhes, com uma vontade como se pudesse dizer: “Olha tudo que já passei, tudo isso é meu.”

“O lugar onde moramos, era menor que essa cozinha…” ela foi falando e gesticulando as mãos para mostrar até onde ia sua antiga casa. “...e colocamos mais de 11 pessoas dormindo nesse espaço”, continuou.


“A sapataria e a casa era tudo no mesmo lugar?”, eu faço perguntas das quais já sei a respostas por ouvir tantas vezes essas histórias, mas quero ouvir ela contar de volta, quero ver ela sentindo-se apropriada de uma herança que é dela.


Nada tira da gente as coisas que vivenciamos, é isso que faz a gente ser o que é. É isso que a mãe me mostra toda vez que ela fala sobre suas histórias: eu sou tudo isso.


“Eu arrumava uma cama para seu primo dormir debaixo do balcão da sapataria, lembra João?”, o pai concorda com a cabeça enquanto morde uma fatia de pão. “O Anderson era bebezinho e dormia numa caixa de som improvisada como berço”. O pai engole o pão e interrompe a história da mãe por uns segundos: “Eu mesmo transformei a caixa de som em berço.” "Sim, foi o João mesmo que fez”, ela conta orgulhosa.

Eu e o Rafael, ficamos ali só ouvindo aqueles relatos, aliviados por saber que não estamos sozinhos nas dificuldades. Dividir histórias também é dividir o peso da vida. Também é mostrar para as pessoas que elas não estão sozinhas.


O copo de café da mãe, ainda sem mexer, dá lugar a ininterrupta história que precisa ser contada, dividida, vivida mais uma vez.


A gente vai mudando nosso olhar sobre nossos pais quando a maturidade vai tomando conta da gente. Hoje meus ouvidos estão mais atentos aos detalhes de tudo que eles me contam. Estou mais interessada nas histórias que antes eram cansativas porque não cabia na vida de uma jovem preocupada com seu próprio mundinho.


Cada vez que eles partilham um pedaço dessas experiências com a gente, é como se quisessem nos ensinar a caminhar por essas estradas difíceis que a vida trouxe para eles. Como se dissessem: “Olha filha, é assim que a vida é”.


Sei que essas histórias são as heranças que eles vão nos deixar, porque tudo que somos é o que já foi feito de nós. Tudo que temos na vida, são histórias. Somos aquilo que lembramos.


 
 
 

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