EU SINTO SUA DOR - uma crônica sobre dores compartilhadas
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Será que é possível sentir uma dor que não é nossa?
Outro dia, quando fui à fisioterapia, pedi para me colocarem no aparelho (aquele equipamento que emite pequenos choques na região inflamada) porque minha hérnia já não me respeitava mais. Estava mais agressiva do que de costume. Precisava abandonar, ali, aquela dor.
O fisioterapeuta me apontou uma porta e pediu para eu aguardá-lo. Entrei numa salinha retangular com cadeiras dispostas uma ao lado da outra. Todas encostadas na parede. E, no fundo, uma senhora ocupava a solidão do último lugar da sala.
Eu, acostumada a fazer os exercícios, desacompanhada, acabei tendo de dividir o espaço com outra pessoa que parecia ter a mesma dor que a minha.
Por precaução, sentei-me duas cadeiras antes dela, para não ficar muito perto — essa mania que a gente tem de não querer se aproximar das pessoas.
Olhei o equipamento e ele tinha os fios curtos. Da última vez que tinha usado a máquina tive que deitar de bruços, mas ali só tinha cadeiras e o vazio da sala. Na agonia da dúvida pensei que aquela senhora poderia me ajudar a entender o que viria a seguir.
Quebrei o silêncio daquela sala vazia para perguntar se nossas dores eram iguais. Ela fez um sinal me pedindo para tirar a máscara, pensei: “Que mulher doida, não posso tirar a máscara para conversar, esse é o sentido da máscara!”, fiz uma cara de desentendida e ela então explicou:
“Sou surda desse ouvido e tenho apenas doze por cento de audição do outro, só te entendo se puder ler os seus lábios”.
Culpei-me em pensamento pela confusão, abaixei a máscara e repeti a pergunta. Confirmei que nossos problemas eram iguais e me aliviei por compartilharmos a mesma dor.
Eu, já preparada para receber os choques e contemplar o silêncio da sala, fui interrompida por aquele vazio se enchendo novamente:
“O seu é o quê?”
“Hérnia inflamada”, eu disse.
“Tão nova!”
Precisei confessar que aquela dor era antiga, me acompanhava desde os 21 anos. Quando eu era, de fato, nova.
O fisioterapeuta chegou, nos conectou na máquina, e saiu.
Aquela senhora se sensibilizou com minha dor e me perguntou: “Você tem filhos?”. Imaginando o desgaste de uma mãe com a hérnia inflamada carregando uma criança enroscada na cintura. Respondi a ela que não tenho filhos ─ já esperando aquele convencimento costumeiro das maravilhas da maternidade que uma não-mãe sempre ouve.
Mas o que veio em seguida foi o contrário disso. O que eu ouvi foi dor, aquela mulher, desconhecida, sentiu o desejo de dividir comigo, no vazio daquela sala, o sofrimento que carregava no peito. Uma dor que não poderia ser curada com uma máquina de choque. Uma dor que, talvez, não poderia se curar.
“É melhor não ter filhos. Eu só tive uma, mas minha filha é nariz empinado”.
E ali foram trinta minutos de desabafo. A filha havia abandonado aquela mãe tirando dela o convívio também com a única neta. Não faziam visitas há anos. Aquela era uma dor mais antiga que a minha.
“Perdi minha audição na gravidez, tive meningite”, continuou a se queixar. “Eu não conseguia engravidar. Tinha problemas”. Imaginei aquela angústia. “Tanto sofrimento que passei para ser mãe e agora nem filha eu tenho.”
Aquelas palavras me atravessaram ao meio. Aquilo me doeu. Percebi que não dividimos o mesmo incômodo. Minha dor era tão pequena perto daquela dor.
Não falei nada nos minutos seguintes. Só ouvi aquelas palavras sufocadas pela própria história. Só observei os olhos tristes daquela senhora consumida pelo vazio de uma falta.
“Eu cuidei da minha neta até os oito anos, mas ela tirou a menina de mim.”
Em cada lamento, as palavras pareciam sangrar. Em cada escuta, as palavras me faziam sangrar.
“Minha filha é psicóloga, eu paguei seus estudos, e mesmo assim ela não vem me ver.”
Em meia hora de escuta eu vivi uma vida inteira. Eu senti uma dor imensa. Havia uma tristeza se espalhando pela sala. Era uma dor compartilhável que surgia. Era como se estivéssemos conectadas uma na outra por entre aqueles fios de sofrimento.
Ela sofria de uma hérnia inflamada no peito por uma filha enroscada na memória. Era a imaginação daquilo que poderia ter sido, mas não foi. Era a ausência de amor, o seu problema. Era a falta, a sua dor.
Senti a tristeza daqueles afetos não nascidos. Dos laços não criados. Das histórias não vividas.
Pensava na minha mãe e no bom relacionamento que tenho com ela, e aquilo me doía mais. Pensava na solidão daquela senhora, e aquilo me doía mais. Pensava naquela neta que não tinha sua avó por perto, e aquilo me doía mais. Pensava no vazio criado entre uma mãe e uma filha, e aquilo me doía mais.
Por um momento, eu julguei aquela filha. Por um momento, eu duvidei daquela mãe. Por um momento, eu senti a perda daquelas vidas privadas por seus orgulhos. Por um momento, eu vivi aquela dor.
O fisioterapeuta entrou, nos desconectou da máquina, e saiu.
Por trinta minutos eu recebi uma descarga de sentimentos. Senti o choque de uma realidade alheia, mas tão presente em mim naquela sala vazia. Não pude aliviar a dor, nem a dela, nem a minha, mas pude escutar um lamento de uma solidão que não cessava. Sai de lá com a estranha sensação de carregar algo que não me pertencia. Sai de lá levando pedaços de sofrimento. Sai de lá com mais dor do que entrei.
Nos dias que se seguiram, não dividimos mais a mesma sala. Mas eu ainda vejo o vazio naqueles olhos. Num “oi” discreto, entre chegadas e partidas, sabemos que por trinta minutos a gente compartilhou a mesma dor naquela sala vazia.




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