UM CHEIRO DE SÁBADO - uma crônica entre o olfato e a memória
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Quando eu era criança os sábados carregavam uma tradição: tinha pão assado e chão encerado.
Morávamos em uma casa de assoalho vermelho, daqueles que recebiam uma boa lustrada com esfregão de ferro, ou meias de lã ─ estas minhas preferidas. Todo sábado minha mãe fazia pão logo pela manhã, sovava a massa e deixava crescer enquanto encerávamos a casa ao longo do dia. Eu escorregava para lá e para cá naquele chão brilhoso parecendo uma pista de patinação.
O tempo em que qualquer tarefa tinha cara de brincadeira. Tudo refletia diversão. A mãe transformava minha serotonina em afazeres. Uma criança entusiasmada é uma força da natureza. Todo mundo saia ganhando.
No final da tarde, quando a casa estava quase limpa, a mãe colocava os pães para assar e os cômodos todos se enchiam com aquele cheiro sofisticado de pão e cera. Existia uma combinação interessante entre esses dois aromas distintos, tão complementares em mim. Era um cheiro de lar.
Depois de assado o pão e a casa limpa, era chegada a hora da nossa santa ceia de afetos. Sentávamos em volta da mesa para comer aquele pão cheiroso na simplicidade daquela casa limpa. Era uma alegria ver a margarina escorrer por entre aquela massa quentinha, parecendo filho enroscado em abraço de mãe. Só isso era tudo que bastava.
Toda semana eu esperava por aquela diversão de aromas. Por aquele cheiro de lar. Por aquele momento de comunhão. Por aquela contemplação do cotidiano.
Com o tempo as casas deixaram de ter assoalhos, as mães e filhas deixaram de fazer os pães, as famílias deixaram de comungar aos sábados. Tudo está mais porcelanato, artificial e distante. Por isso que a memória é o único rastro de que os nossos dias já foram de uma simplicidade refinada, divertida, necessária. De que houve uma época em que o quase nada era quase tudo.
O meu olfato tem a bondade de trazer o passado, vez ou outra, para me visitar no presente. Hoje, quando sinto o cheiro de pão assado, qualquer dia da semana vira sábado. Quando sinto o cheiro de cera, qualquer lugar vira lar. Quando os dois se juntam, qualquer memória vira um portal direto para aqueles sábados perfumados de afeto.
Sempre posso espiar aquela menina deslizando com seus sapatinhos de lã no chão vermelho da casa cheirando a pão e cera. Um aroma requintado de uma vida tão comum. Tão divertida. Tão inocente daquela pequena bailarina no assoalho. Para mim, pão e cera sempre vão ter um cheiro de lar num sábado à tarde.




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