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SINGULAR - uma crônica sobre pessoas únicas

  • Foto do escritor: Elisangela Dalmazo
    Elisangela Dalmazo
  • 17 de nov. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 31 de mar. de 2023





Se uma pessoa pudesse ser cor, meu irmão seria todas as intensas.


O verde limão, o laranja aceso, o amarelo sol, o rosa choque. Ele seria fogos de artifícios. Gostava de cores vibrantes.


Uma vez foi na costureira e encomendou várias camisas polos de cores intensas. Cada dia saia com uma. As cores refletiam a sua personalidade ─ igualmente intensa e vibrante. Por isso cores neutras e fracas não lhe caiam bem. Eu, neutra que sempre fui, quando saia com ele acabava sendo notada porque um pedaço do arco-íris andava do meu lado. Lembro que num curso que fizemos juntos eu sentava na última cadeira no fundo da sala para não ser percebida, mas todos os dias os professores apontavam para ele ─ sempre colorido ─ como se fosse uma marcação num texto em que o olhar puxa para a parte destacada na folha.


Ele sempre se destacou. Era impossível se camuflar perto dele.


Parecia o sol que ilumina tudo em volta porque tem luz de sobra para acabar com a escuridão de qualquer satélite. A minha escuridão não teve paz com ele. Sua excentricidade era tanta que comprou um fusca verde e desenhou fogos laranja e azul no capô. O tipo de carro que só ele poderia ter. Todo fusca tem sua cara agora.


Parece que ia engolindo tudo que tocava e tudo acabava se tornando parte dele, mas só depois de deixar tudo colorido e excêntrico. Não era dado a coisas comuns. Queria sempre o diferente, o mais exótico. Ele queria criar sua marca no mundo. E criou. Fazia seus próprios tênis coloridos do modelo que quisesse. Fazia suas mochilas, exóticas, com desenhos próprios. Queria fabricar tudo que fosse possível com suas próprias mãos, do seu próprio jeito, só assim era capaz de colocar sua personalidade ali. Ele queria dar vida às coisas.


Seu olhar era diferente demais para aceitar o convencional. Ele criava para se enxergar nas suas criaturas. Precisava ver o que não via em outro lugar. Precisava criar seu próprio mundo. Mas ele não era só uma paleta exuberante de tons. Também era temperamento. Tinha posicionamento, voz, personalidade. Não levava desaforo para casa, mas também não guardava ressentimento. Era um paradoxo temperamental. Com ele tudo acontecia ali, no momento, depois era só depois. Parecia um vendaval que sacudia tudo, mas que logo a calmaria tomava conta. Eu morria de raiva do seu desapego pelo rancor. Ele não queria se encher do inútil.


Tinha tanta personalidade que dividia comigo: “Lisa, você tem que se impor, não pode deixar ninguém falar o que você deve fazer”, era o que dizia quando eu me queixava de alguma coisa. Ele me treinou para eu criar o meu lugar no mundo. Me ensinou a ser um mundo.


Ele era uma galáxia inteira. Como pode uma galáxia inteira sumir?


Nunca mais vou ver alguém assim. Sabe quando você fabrica uma peça única e ninguém vai ter outra igual? Ele era assim. Tão singular quanto suas próprias peças.


Platão acreditava que por trás do nosso mundo existe um mundo das ideias, onde tudo é perfeito e eterno, onde tudo é criado antes de vir para o nosso mundo dos sentidos. Tenho para mim, que meu irmão hoje ocupa esse mundo das ideias. Está lá criando coisas só para vê-las existindo entre nós, brincando de pintar o nosso mundo.


Posso vê-lo em uma roupa colorida, nos calçados exóticos, nas peças diferentes. Gosto de imaginar que foi o jeito que ele encontrou de se manter eterno aqui. Mas sei que foi o jeito que eu encontrei de mantê-lo vivo em mim.

 
 
 

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