SAPATOS ESTRAGADOS - uma crônica sobre pessoas nobres
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Eu cresci em meio a centenas de sapatos estragados.
Meu pai é sapateiro e minha infância foi regada a cheiro de tinta, cola e couro. Minha mãe o ajudou desde sempre, então nossa creche foi o chão de uma sapataria e os brinquedos pedaços de borrachas e botões velhos. Tinha gente que falava que era perigoso nos deixar em meio àqueles cheiros fortes: “Isso não é ambiente para criança”, diziam. Mas ali foi o melhor lugar para a gente crescer. Não é toda criança que tem a sorte de ter os pais sempre por perto. De ver o pai exercitando seu ofício. É assim que a admiração se constrói.
Quando eu estava na escola, uma vez uma garota tirou sarro por eu ser filha de sapateiro. Eu nunca senti vergonha, senti tristeza porque eu sabia o quão trabalhador meu pai era. Com o tempo entendi que aquela menina só refletia um conceito torto de uma sociedade doente: de que a simplicidade não tem relevância.
Meu pai nunca se deixou abalar pelos olhares julgadores por causa de suas roupas sujas de tinta e cola. A simplicidade sempre foi sua marca e não há nada mais sofisticado que isso. Por onde ele passa as pessoas o reconhecem pelo excelente trabalho que faz. Não é qualquer um que deixa um rastro de admiração pelo caminho. Isso é mais valioso que dinheiro.
Uma vez um homem entrou na sapataria e tinha dificuldades em se comunicar por alguma limitação motora. Meu pai, paciente, o escutou, o observou e resolveu seu problema sem emitir muitas palavras também. Percebi ali, naquela conversa silenciosa, que a melhor comunicação estava na atenção e respeito por alguém. Aquilo me ensinou mais sobre humanidade do que em qualquer outro lugar.
Os meus valores foram formados entre graxas, tintas e afetos. Afetos que se estendiam para além daquele balcão de sapataria. Em meio a sapatos estragados foi onde o carinho se nutriu, onde a família criou laços, onde os valores foram gerados. Meu pai me ensinou que não importa em que lugar uma criança cresça, desde que, incondicionalmente, o amor esteja ali.
O ambiente que parecia insalubre foi o mais saudável possível para construir a minha dignidade. Para muitos, aqueles cheiros são desagradáveis, o lugar é bagunçado, a profissão simples demais. Para mim, aquilo tudo é amor. E não há nada mais luxuoso que amor.
Aqueles cheiros incomuns são aromas familiares para mim. São cheiros nobres. A marca do legado que eu carrego. É o aviso que me lembra de quais são minhas raízes, qual é o meu lugar no mundo.
Com o seu trabalho discreto, meu pai me fez enxergar as coisas de uma forma fascinante. Mostrou que num ambiente modesto é possível tanto consertar um calçado velho quanto fabricar virtudes nobres.
Um sapateiro pode não gerar fortuna para deixar, mas eu vou receber o mais belo legado: de que simplicidade e honestidade são nossas maiores riquezas. São marcas de almas raras. Elegantes. A herança que não podemos nos desfazer pelo caminho. Foi assim que ele construiu meu mundo refinado com os seus sapatos estragados ─ transformando ruínas em fortalezas indestrutíveis. Um feito que só um sapateiro nobre é capaz de fazer.




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