O SOM DA ALEGRIA - uma crônica sobre as melodias da vida
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

“Tio, posso ouvir música no carro?”.
Era isso que meu primo dizia ao meu pai toda vez que nós chegávamos à casa da minha tia. Para um adolescente da década de 90, não tinha nada mais fascinante do que ficar ouvindo música no rádio. Essa era a diversão.
Assim que meu pai jogava as chaves para ele, eu e meu irmão, ainda crianças, íamos juntos nos enfiar num corcel dois que virava nossa sala de música. Ficávamos lá até a tia chamar para jantar. Até nós três sintonizarmos na mesma frequência.
Naquela época, a Jovem Pan era a rádio principal dos jovens. Era o que unia as tribos de garotos e garotas para contemplarem os prazeres que a música traz. Naquele corcel dois, conhecíamos mais sobre nossos gostos musicais, nossas vozes desafinadas, as bandas preferidas. Aquele carro era uma ponte para nossa identidade.
Era o encontro dos nossos universos. Entre uma banda e outra nossa amizade preenchia àquela pequena discoteca. Nossa música silenciosa era erguida no último volume dentro da gente. As frequências, enfim, se sintonizavam, e eu, podia pertencer a algum lugar.
Ainda posso ouvir aquela música.
O som da alegria de crianças que fizeram de alguns momentos a melodia de uma vida inteira. Pequenos compositores da felicidade. Hoje, as músicas não são mais ouvidas em comunhão. Não se divide mais a diversão. Não acessamos mais o universo que é cada ser humano.
Hoje, fabricamos pessoas isoladas que contemplam a própria solidão. Somos ouvintes solitários. Frequências perdidas no espaço sem ter um lugar para pertencer.
Meu primo morreu ainda adolescente e nossa música foi interrompida como uma rádio fora do ar. Não lembro mais o som da sua voz, quais bandas preferidas, os assuntos que surgiam naquele carro, mas a sintonia que criamos nunca mais vai se desligar em mim.
Meu irmão morreu depois, mas ainda jovem, o que nunca morrerá é a beleza daquela música silenciosa que criamos juntos. Uma tríade perfeita de primos. A eternidade é mesmo feita de breves momentos.
Toda pessoa que morre deixa algo com a gente, mas também algo nosso morre com ela. Hoje, as memórias daquele santuário sonoro são somente minhas, não posso sentar com eles agora e discutir sobre as bandas que gostávamos, os detalhes mal lembrados, quem desafina mais. Não posso ver a felicidade nos olhos deles em partilhar essas recordações.
Sou como uma rádio que toca apenas canções antigas e só tem o radialista como ouvinte. Sou uma sintonia solitária, uma frequência perdida no tempo buscando o seu lugar no passado.
Penso que têm pessoas que passam pelos nossos caminhos não para permanecer, mas para criar melodias em nós que servem para preencher o vazio da vida, para complementar a canção que somos. Tive a sorte de ser alguém transbordada de boas melodias.
Pensar naquelas noites, é como se eu pudesse voltar para o carro e ouvir aquela música por mais alguns minutos. É como se minha memória fosse uma fita cassete onde a gente grava a canção preferida do rádio e depois fica ouvindo repetidamente. A melodia das nossas vidas vai tocar no meu rádio para sempre. O som daquela alegria está no último volume aqui dentro.




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