O POUSO DOS PASSARINHOS - uma crônica sobre a simplicidade da vida
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Sou do tempo em que árvore era playground de crianças livres.
Em frente de casa tinha uma árvore grande de galhos volumosos, sempre abertos segurando cachos de pequenos frutinhos roxos. E nela brincávamos, eu, meu irmão mais velho e duas meninas que eram nossas vizinhas. Cada um de nós tinha um lugar específico na árvore. Era nosso esconderijo verde.
Meu irmão ficava com o melhor lugar porque era o mais velho, menino, e tinha mais jeito para subir com rapidez. O lugar dele era um tronco grosso esticado, parecendo um colo pronto ─ só esperando uma criança para sentar. A mais velha das duas irmãs ficava com o segundo lugar, era um tronco menor, mas igualmente confortável. O meu lugar vinha depois, era um vão pequeno entre dois troncos largos que davam para o topo da árvore. A menorzinha das duas irmãs ficava com o lugar menos confortável, mas igualmente divertido.
A brincadeira principal era tirar as bolinhas dos cachos da árvore para jogarmos uns nos outros, como uma guerra divertida ─ ah, se toda guerra fosse assim. Entre risos estalados e bolinhas pelo corpo a alegria invadia aquele esconderijo. A dificuldade depois era tirar as pelotinhas embrenhadas no cabelo.
Passávamos a tarde toda pousados naquela árvore, feito passarinho procurando descanso. Éramos crianças-passarinho. Não lembro sobre o que conversávamos. Talvez sobre algum outro passarinho que pousava nela também; sobre a beleza da rua calma; sobre as formigas que andavam pelos galhos; sobre o que havia para além da copa daquela árvore.
Ali do alto nossa visão era alargada. Sempre víamos uma bola presa no vão de um telhado; os restos de uma pipa enroscada nos fios de luz; um terreno vazio depois da esquina onde sempre tinham meninos jogando futebol. Uma fase em que tudo era amplificado. Que tudo era interessante. Época em que não enxergávamos pressa no tempo.
Formávamos uma equipe perfeita de quatro crianças-passarinho que sabiam se divertir com a simplicidade da vida. Nas sombras daquela árvore era o nosso lugar. Nosso refúgio. Nosso lar.
Descíamos de lá só quando ouvíamos a mãe chamar para comer uma sobra de papinha deixada pela minha irmã. Todos os dias minha mãe dava farinha láctea para aquela bebezinha rechonchuda, mas ela não comia tudo, então minha mãe criou uma regra: as sobras da papinha seriam comidas, um dia por vez, por uma daquelas crianças-passarinho. A mãe preparava uma quantia generosa para fazer aquele mingau sobrar.
Lá em casa o amor sempre foi farto.
Um dia as sobras eram minhas, no outro do meu irmão, depois era de uma das meninas e assim por diante. Aquela era a melhor hora do dia. O sabor daquele mingau se acentuava pelo fervor da nossa espera. Era um prazer comer aquelas sobras. Uma época em que tudo tinha gosto de diversão.
Assim que o lanche terminava voltávamos para os braços daquela árvore. Subíamos como esquilos ligeiros, ajeitávamos nossos pequenos quadris, e ali a brincadeira continuava até o horizonte ficar colorido. Do alto daquela árvore tudo era mais singular.
Ela florescia no final da primavera e o perfume era delicioso. Eu sabia quando as férias estavam chegando só pelo cheiro das flores. Aquele perfume anunciava a felicidade para aquelas crianças sedentas por mais horas penduradas nos galhos.
Com o tempo, a senhora ao lado começou a não gostar das inocentes folhas da árvore sobre o chão de sua calçada. A pobre companheira que só nos divertia passou a ser uma vilã para vizinha rabugenta que insistia para meu pai podar os galhos. Depois de tantas podas ela perdeu seus troncos e nós perdemos nossos lugares naquela árvore.
Agora, ela não abriga mais a nova geração daquela rua, não forma mais crianças-passarinho. Mas a árvore continua lá, resistindo ao tempo e à implicância de pessoas amargas. Por entre suas cascas, ela guarda as lembranças de uma época boa em que a natureza era o nosso lar.
Mas nem tudo resistiu ao tempo.
O destino, tristemente, levou a metade daqueles passarinhos para um lugar onde não podemos pousar. Os seus pousos encontraram outro ninho para além daquela copa, onde os galhos da árvore não podem mais alcançar. E ficou aqui a outra metade, só com a saudade daqueles passarinhos com quem não podemos mais brincar.




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