O GOSTO DO AMOR - uma crônica sobre a fartura do amor
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

A fartura lá de casa sempre foi o amor.
Até os 10 anos eu estudei numa escola que ficava na esquina de casa. Lembro que eu e meu irmão, às vezes, acordávamos atrasados e tínhamos a sorte de conseguir chegar à escola antes do portão fechar. Era uma escola simples de bairro, cheirando a giz de cera e tinta guache.
Na época, o pátio era de pedrinhas soltas e os muros eram de grades, tipo aquelas de cancha de futebol. Como a escola era perto de casa, minha mãe sempre levava o lanche para gente na hora do recreio. Assim que o sinal batia lá estava ela segurando um potinho com bolinhos fritos e uma garrafinha de café. Era um bolinho simples feito de água, trigo, sal e amor. Eram bolinhos de amor.
Chegávamos perto da grade e ela nos entregava os bolinhos e um copinho de café para cada um de nós. Era nossa santa ceia de afetos. As crianças ao redor ficavam curiosas com aquela mãe distribuindo amor. “Ofereça para eles”, ela dizia. E assim a comunhão se estendia pelos pátios da escola.
Lá em casa o amor sempre foi farto.
Mas nem todo mundo está preparado para a fartura do amor. A diretora da escola não gostava disso e falava: “Marilene, não pode trazer lanche para as crianças aqui”, mas ela nunca conseguiu fazer minha mãe parar de nos amar. Era o amor que nos nutria entre as grades da escola. A mãe tinha prazer de nos ver na hora do recreio. E ninguém tira o prazer de uma mãe. Todo dia ela estava lá, alimentando seus filhotes, parecendo uma passarinha carregando o amor no bico.
Nossa família sempre foi mais farta. Éramos crianças rechonchudas, bem alimentadas com bolinhos de amor. “Essas crianças estão com sobrepeso”, diziam para ela. “Não é sobrepeso, é amor”, era o que falava o coração da mãe.
Lá em casa o amor sempre foi farto.
Mas nem todo mundo está preparado para a fartura do amor. Tem gente que é farta de amor farto. Eu não, eu quero é ter sobrepeso de amor.
Depois que saímos daquela escola a diretora subiu um muro de tijolos. Meu irmão brincava: “A escola teve de fazer muros para proibir a senhora de levar lanches”.
Mas nenhum muro há de silenciar o amor de uma mãe.
Porque a fartura lá de casa sempre foi o amor.
Cozinhar é a forma da minha mãe cuidar, amar, de estar no mundo. Sua força está na comida, e no amor.
Mas que gosto tem o amor?
Para mim, o amor sempre vai ter esse sabor de bolinho frito com café entregues entre as grades da escola por uma mãe sedenta em amar os seus filhotes.




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