LISTA DE CORTES - uma crônica sobre a fartura da fome
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Entre uma escassez e outra a gente precisa fazer uns cortes.
“Vamos deixar só o essencial”, dizem. Excessos não podem mais. Luxo, nem sei o que é. A carne já foi cortada antes dessa lista aparecer.
Um dia corta a bolacha “melhor assim”, dizem. Depois corta a banana “dá para ficar sem”, falam. Com o tempo, as frutas todas são cortadas. Logo, cortam os legumes e as vitaminas se findam de vez.
Um dia, corta o feijão. No outro, a dignidade é cortada. O preço do feijão não coube no poema, como não cabe nesse texto o preço da comida.
Então corta o óleo, o trigo e o sal. De corte em corte a gente chega ao essencial.
Depois, corta o café e com ele vai embora um pouco da alegria.
De repente a vontade é sufocada por uma conta atrasada, por uma luz que vai vencer.
A fome é espremida para caber mais cortes. “Só o essencial”, insistem.
Depois, corta o arroz.
E a saúde?
Bom, a saúde já foi cortada antes dessa lista aparecer. Na escassez o essencial é confundido com excesso. A lista que já estava pequena, agora se espreme em meia dúzia de itens na imensidão da folha vazia. A lista de compras virou uma lista de cortes.
Mas e o básico?
“É excesso!”, dizem.
No jornal a dica é substituir a batata por aipim, depois aipim por farinha, e por fim, fome por positividade.
Depois, corta o leite porque faz mal ─ estamos todos intolerantes ao preço da lactose.
O lazer é cortado para dar lugar ao gás. Ou come, ou se diverte. O fogão vai virando lenha, que vai virando fogareiro, que vai virando faísca. Com o tempo até o ar acaba para matar o fogo. Mas não tem nada para matar a fome.
A fome é farta.
As sobras serão entregues à sorte.
Por último, sobra-lhe pele e osso. Nem a tristeza cabe mais dentro daquela pele. De repente lhe corta a pele e fica só o osso. Mas no osso a identidade não cabe mais. E quando se vê não sobrou mais nada.
O que sobrou foi a fome farta daquele que um dia era alguém, e agora é um nada que teve que cortar tudo até virar ninguém.
Mas ainda assim, cortou-se a história daquele João ninguém.
Até não sobrar mais nada.
Eu termino esses escritos antes que essas palavras sejam cortadas.
Antes que isso aqui vire uma folha vazia.
Até não sobrar mais nada.




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