A CASA SEM COR - uma crônica sobre as cores da vida
- Elisangela Dalmazo
- 17 de nov. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2023

Quantas cores cabem dentro de uma vida?
Um dia resolvemos pintar nossa casa com cores vivas. As paredes da sala ficaram numa combinação de laranja entardecer e verde menta. O chão ficou amarelo sol. E o teto tinha duas estrelas feitas com forro de madeira ─ que pareciam brilhar. A cozinha ficou em azul oceano. Era como se a natureza tivesse vindo morar dentro de casa. Era como se a casa tivesse ganhado vida.
As plantas entravam numa sintonia agradável com as cores que saltavam daquelas paredes vibrantes. A luz entrava pela janela com mais vontade. Pessoas entravam e saiam com mais vida. A casa estava sempre em festa. Seus olhos brilhavam espremidos com o sorriso que emanava daquelas paredes pintadas de vida.
Na casa sempre era dia de sol; de praia cheia; de férias de verão. A felicidade era quase uma moradora, aparecia com frequência e trazia sempre com ela o arco-íris para compor os tons de vida.
Um cheiro bom emanava naquela casa, um pão no forno, um café passando, um feijão fresco. O cheiro do mar. Era a brisa do amor que se espalhava pela casa. A vida acontecia ali: entre aquelas paredes coloridas.
Era uma casa grande que abrigava oito pessoas: meus pais; meu irmão mais velho; eu; a irmã que veio depois; as duas irmãs que vieram depois dela e o caçula que estava para chegar. Mas a casa aninhava mais que a nossa família, ela era morada dos amigos, dos primos, dos primos emprestados de outros primos, dos tios, dos avós, todo mundo cabia ali.
Estava ela sempre esperando para abraçar a multidão que chegasse. Estava ela sempre multiplicando famílias. Na casa era sempre sábado. Eram as vidas que pintavam as cores daquela casa.
Daí o irmão caçulinha nasceu e a casa começou a ter o aroma de recém-nascido. Aquele perfume que dizem ser o melhor do mundo. Exalava um cheiro de amor pelo ar. Meus pais ganharam mais um filho. A casa ganhou mais vida. E o sorriso daquela família ganhava mais cor.
Então resolvemos tirar os tons de vida. Passamos um bege quase branco nas paredes e o chão ficou cinza. Mas a vida ainda morava ali. A casa ainda sorria. As pessoas continuavam a visitá-la. A magia ainda permanecia naquelas paredes sem cor.
Só que um dia meu irmão mais velho morreu. Meus pais perderam um filho. A casa perdeu sua parte. E a família perdeu o tom da alegria. Depois disso, a casa não sorriu mais. Ela tinha perdido sua alma. Uma casa sem alma não pode sorrir. Ela não tinha mais cores vivas.
O sol já não entrava pela janela. As pessoas não visitavam mais aquela casa triste. As plantas secaram. Até a felicidade aparecia menos e quando vinha se vestia de luto. As cores discretas estavam na casa, mas a vida daquela casa tinha partido com o meu irmão.
Quantas cores cabem dentro de uma vida?
Agora quando chego lá, a casa está sempre com os olhos marejados escondendo um choro espremido. A luz que brilhava nela se apagou e deu lugar a uma sombra que insiste em permanecer. As lembranças felizes parecem até histórias inventadas. Na casa é sempre noite de chuva. Não faz mais festa, não se diverte mais. O ar ficou impregnado com um cheiro de solidão. O inverno se instalou naquelas paredes sem vida.
Toda reunião que fazemos na casa sempre faltam cores. No semblante da família sempre se esconde uma falta. Outras vidas surgiram naquela casa, mas ela não ficou mais colorida. A casa cheia sempre está vazia. Ela ficou mais séria, sua risada não ouvimos mais. A casa que antes era cheia de vida, agora sofre com o imenso vazio de uma falta. O amor ainda permanece naquela casa, mas é um amor pálido prestes a adoecer.
Quantas cores cabem dentro de uma vida?
Meu irmão foi embora levando com ele todas as cores da casa. Ela nunca mais vai ser pintada de vida. O que restou agora foi só uma casa velha, triste, com moradores que se esforçam num sorriso sem cor. A magia acabou. A casa ficou em preto e branco. A família guarda com eles apenas as lembranças de uma casa colorida que hoje chora sem cor.




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